A moda fitless nas academias
Logo que parei de fumar decidi recomeçar, finalmente, as minhas atividades físicas. De tanto ouvir falar dos seus benefícios e de tanto ler a respeito das maravilhas da ginástica, decidi começar pegando leve. Na minha primeira seção livre de nicotina no sangue, consegui correr durante 4 minutos sob a esteira rolante que comprei no Extra. Para mim, aquela marca tornou-se um recorde, merecedor de medalha de honra ao mérito. Quatro minutos ininterruptos de corrida para um gordo ex-fumante sedentário? Sem dúvida, foi um recorde. E o fato de meu pulmão não ter sido cuspido longe é outra coisa merecedora de troféu.
Depois de suar e doer muito, consegui encontrar minha forma física. Matriculei-me numa academia "profissional", que prometia equipamentos de última geração, personal trainers, orientação nutricional e o diabo a quatro. Eu realmente começava a me empolgar com a idéia de ter um corpo parecido com os dos galãs das novelas da Globo, apesar de aquela maldita gordura localizada na pança não querer sair dali de jeito nenhum. Decidi que iria me dedicar às atividades aeróbicas, aos halteres, e às corridas.
A primeira coisa que fiz foi comprar um enxoval adequado para a prática das atividades: duas bermudas, duas meias e... e foi só. Fiquei constrangido de entrar numa loja de esportes, com todas aquelas mulheres sinuosas e musculosas, com aqueles moleques de camiseta regata com bíceps à mostra. E todos, sem exceção, sem barriga de cerveja. Naquele dia tomei uma decisão muito importante para os meus treinamentos: deixei de tomar cerveja para beber vodka. Menos calórica, mais "concentrada", não deixa bafo e não precisa ir toda hora ao banheiro.
Pois estreei no mundo dos bombados. Subi na esteira, vestido com uma camiseta Hering branca, um short novo, uma meia nova e um tênis de corrida de R$ 130. Ajustei a máquina para 8 km/h e parti rumo a lugar nenhum.
Ao meu lado, um rapaz suando em bicas nem parecia sentir o efeito dos 14 km/h de sua esteira. Chegou a conversar com um colega que passou, apertaram as mãos e continuou correndo e suando.
Uma morena escultural, vestida com calça e top de Lycra, passou pela minha frente e não pude deixar de acompanhá-la com o olhar. Ela se debruçou sobre uma máquina, empinou a bunda o máximo que pôde e começou a exercitar seus glúteos, levantando as pernas e empurrando um peso incrível em três séries de 15.
Um gordo corta a minha visão, e eu penso "ainda bem que tem alguém do meu planeta por aqui". Ele anda estranho, meio que cambaleante, sobre suas pernas gordas. Seus tênis parecem ter de dez a quinze anos de vida, não consegui mensurar corretamente. Vem em minha direção. "Não, não vem queimar meu filme!", penso. Aposto que ele se identificou com o único gordo além dele naquele lugar. Felizmente, ele acaba subindo numa esteira ao lado do rapaz suante.
Passa outro rapaz. Este é bastante estranho, tem a barba por fazer, usa bermudas e tênis com cores fluorescentes, o cabelo ensebado. Usa pochete, e a julgar pela sua aparência, só posso acreditar que ele esconde ali alguns gramas de maconha ou haxixe.
Uma mulher, loira, aparentando ter quarenta anos. Usa faixa na cabeleira encaracolada e curta. Lê o novo livro do Paulo Coelho enquanto pedala nas ergométricas. De vez em quando, ajeita os cabelos e dá uma olhadinha em volta. Aposto que é pra saber se tem alguém olhando para ela. Só pode estar fazendo pose de intelectual.
Outro homem, também aparentando quarenta anos. Pança sobressalente, usa regatas e tênis com amortecedores. Caramba, que tênis! Estufa o peito, passa pela morena que termina a série dos glúteos. Encolhe a barriga, que quase fica no mesmo alinhamento do peito. Tira um aparelho do bolso da bermuda, pluga no ouvido e começa a fazer exercícios para os braços. Caramba! Com aquela barriga e ele ainda tá preocupado com as braços?
Um jovem passa, cabelos com gel. Gel para exercícios, vai saber. Camiseta Nike, bermuda Nike, tênis Adidas, meias Adidas pretas. Dá pra sentir o cheiro do perfume francês. Sob a camiseta, uma cinta para medição dos batimentos cardíacos, de marca Suunto, que ele faz questão de mostrar para o colega. Mexe no relógio, faz uns ajustes, sobe na esteira, posiciona o Gatorade corretamente, apóia a toalha branca sobre a máquina e começa seu treino. Depois de três minutos de corrida, já dá um golinho no Gatorade e consulta o pulso. Cinco e trinta, nova olhada no pulso. Seis e quinze, dois goles do suco. Sete e quarenta, parece sentir uma fisgada na coxa e desliga a máquina. Fim de treino para o atleta.
Minha esteira marca 35 minutos de corrida, e 5 km percorridos. Acho que é o suficiente por hoje. Enxugo a testa na manga da camiseta, arrumo minhas coisas e vou pra casa, pensativo. Me pareceu que poucos vão pra lá para realizar atividades físicas, mas sim para simular um ideal atlético.
Amanhã volto para mais 35 minutos de corrida. E se encontrar novamente aquele barrigudo do tênis legal, pergunto aonde ele comprou. Realmente, gostei daquele tênis com amortecedor de molas. E pensando bem, aquela pochete também seria bastante útil, pois eu poderia carregar as minhas chaves, o celular, carteira...
Venho passando por um momento intenso de felicidade, e me peguei assustado. Sim, fiquei com medo. Quando fiquei cara a cara com a felicidade, não soube como reagir e tremi. E isto me faz pensar que o ser humano só sabe viver bem se tiver sua boa dose de infelicidade.
A frase "sem medo de ser feliz" me faz sentido agora, porque quem é feliz fica mesmo com medo.
Dane-se o pessimismo, foda-se a tristeza. Daqui pra frente, fica decretado que serei feliz. Eternamente.
O Clã das Adagas Voadoras
Empolgado com o razoável Herói, fui assistir ao Clâ das Adagas Voadoras, do diretor Zhang Yimou. Filme chinês, cheio de artes marciais, espadas e, claro, adagas voadoras. A julgar pelos apelos publicitários, o Clã deveria ser um filmão.
Mas o que era uma promessa de bom filme acabou virando um programa de índio. O filme é terrível. Tirando a cena inicial em que uma dançarina cega desenvolve a dança do eco, nada se salva. Com uma direção equivocada de atores, Zhang produz um dramalhão chino-mex-malhação. O excesso de externas me faz acreditar que gastaram pouquíssimo com cenários, já que o filme todo se passa no meio do mato. E o que mais irritou: a tremenda falta de ritmo, com cenas demasiadamente, exageradamente e injustificadamente looooongas.
O melhor do filme fica para a cena final, que farei questão de revelar.
CENA FINAL 1:
O mocinho se separa da mocinha. A mocinha pensa se vai atrás do mocinho, seu grande amor. Pensa, pensa, pensa e acaba decidindo ir. Mas o vilão, apaixonado e traído pela mocinha, pretende boicotar seus planos, e atira-lhe uma adaga voadora que atinge certeiramente seu coração. A mocinha cai do cavalo, morta, sobre as flores do campo.
CENA FINAL 2:
O mocinho pressente que algo aconteceu à sua amada, e volta para buscá-la. Encontra-a estendida sobre a relva, desfalecida. Segura-a em seus braços, e grita de dor. A mocinha parece ressusitar com seu urro gutural, e abre os olhos com dificuldade. (neste momento ouve-se um burburinho na platéia, com direito a risadas) E fala-lhe algo ininteligível. Ele não entende, e ela repete: cuidado, atrás! O mocinho se vira e vê o vilão prestes a apunhalar-lhe. A mocinha dá novo último suspiro e estende-se pelo matagal.
CENA FINAL 3:
Segue uma lutinha básica que dura minutos, com direito a espadas, chutes e socos. Ao final, os dois se acertam ao mesmo tempo, e ficam cambaleantes. O vilão ainda tem uma adaga, e pretende usá-la para liquidar seu adversário. Mas eis que a mocinha se levanta da relva (todos gargalham na sala de cinema), e mesmo cambaleante, arranca a adaga cravada no peito e investe contra a adaga do vilão.
Bom, acho que deu pra ter uma noção do que lhe espera em O Clã das Adagas Voadoras. As cenas finais não são exatamente assim, como descrevi, mas o mais interessante foi relatado: a platéia não consegue segurar a crítica e vaia o filme mesmo antes de acabar.
É mais um filme que entra na minha lista de "Os 10 piores filmes que já assisti".
Este blog está chato. E desatualizado. Use os comments aí embaixo para xingar à vontade.