Boletim de Ocorrência da égua sequestrada
O título parece manchete do extinto Notícias Populares, mas o caso é totalmente verídico. Antes disso pretendo contar uma história, dessas que acontecem com todo mundo mas só dói quando acontece com a gente - ou, no caso, com gente que a gente gosta.
Já é sexta-feira, uma da madrugada. Saindo da casa da namorada, quatro menores de idade vestindo boné e blusa de moletom se aproximam e o faz pensar instantaneamente: "Tou ferrado". Um deles, mais agressivo e decidido, aponta a pistola cromada para a sua cara, e anuncia o assalto. Ele não esboça reação, entrega o que tem nos bolsos e vê os quatro partindo em disparada com seu carro, em direção à favela vizinha.
O carro não tinha seguro, pois ele não ganhava o suficiente para pagar. Tem 20 anos, trabalha há 4 no mesmo local, nasceu em família com hábitos humildes e trabalha praticamente para juntar o suficiente para o financiamento. Ainda tem um carnê do aparelho de CD que instalou no mês passado e parcelou em 10 vezes. Provavelmente, virará pó ou pedra.
Ele irá trabalhar pelos próximos 2 anos pagando por algo que não tem. E é apenas um garoto.
Recebo a ligação no meio da noite, ouço seu desespero e saio para ajudá-lo. Encontro-o próximo ao local do roubo e vamos para a Seccional de Osasco, no número 300 da Marechal Rondon, um lugar totalmente desconhecido para mim. Mal iluminada, a delegacia chama atenção pela fachada azul anil. O ambiente é o mesmo que você já deve ter tido o desprazer de conhecer: paredes sujas, folhas coladas com durex por todos os lados, tubulações improvisadas pelas paredes, fios pendurados desalinhadamente pelos tetos. E aquela clássica mesinha de fórmica amarelada consumida pelo tempo.
O Renê, jaqueta preta de nylon e trabuco na cinta, pergunta o motivo pelo qual adentramos o local e o avisamos do assalto. Ele parece preocupado e toma decisões "rápidas": anota a placa e o modelo do carro num teco de folha sulfite. E aí nos pede para aguardar um momento, pois há um caso na frente. E esse é o caso da égua sequestrada.
A menor de idade, de vestido de tecido simples e aparência humilde, se vê acuada pelos policiais, por um brutamontes e por um magrelo bêbado. O Brutus, que parece ser uma pessoa de bom senso, dá o ultimato: ou devolve a égua ou vai engrossar. Diz que vai entrar com processo e ela vai se ferrar. Os policiais tentam aliviar a pressão, há uma pequena agitação. A garota nem se move, e permanece olhando para o infinito. Um dos policiais murmura que ela já "tem passagem", e o Brutus faz olhar pensativo. O delegado avisa que um processo desse tipo demora muito tempo pra se desenrolar. Sabendo da lentidão característica da nossa justiça, morrerão 2 gerações de égua até que essa sequestrada seja devolvida ao seu dono.
Eis que o Renê nos chama para a elaboração do B.O. e eu perco o fim da história. Que fim teria sido o da égua? Será que a garota a devolveu ao seu dono? Ou será que diante da miséria e da fome, a égua teria sido o ingrediente principal de um delicioso churrasco?
Entramos na saleta do policial Soares, escrivão. A sala é revestida por placas de fórmica que imitam a textura de madeira, possui boa iluminação, tem duas cadeiras estofadas e dois sofás de curvim. Um radinho ao lado da impressora matricial toca, ironicamente, uma música de Gilberto Gil. "A paz... invadiu o meu coração..." Nova Brasil FM.
Soares senta à frente do computador e vai nos perguntando o ocorrido. Descrição dos meliantes? Como foi a abordagem dos indivíduos? O que subtraíram do veículo? Discretamente, olho para seu computador e percebo que não há nenhum cabo de rede que o conecta a um servidor central. E aí vem a sensação de que estamos conectados a lugar nenhum tomando conta de minhas esperanças em encontrar novamente o carro roubado.
Cê já percebeu que todo mundo dá uma freiadinha quando passa por um radar eletrônico, mesmo que esteja abaixo da velocidade permitida?